ENTREVISTA_ANTÓNIO OLE


Um dos mais importantes artistas contemporâneos de Angola, António Ole traz ao Brasil duas instalações em que estão presentes temas como o tempo, a história e a trajetória de seu próprio país. Nesta entrevista, Ole fala da importância do conhecimento do passado como propulsor da vida.

Por Helio Hara


A memória, elementos que guardam uma história e um tempo estão presentes em sua obra que utiliza, por exemplo, objetos achados. Pode-se pensar em nostalgia? Ou numa maneira de recorrer ao passado para organizar o presente?
Alguém, de quem não me recordo agora, disse: “Aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo”. Frase com certeza para reflexão. Embora a tendência atual seja para um esquecimento crônico, parece-me, ao contrário, que é preciso contrariar uma freqüente tendência à amnésia. Quanto à nostalgia, posso garantir-lhe que não tem ligação alguma com a minha prática artística.

A história de Angola, muitas vezes conturbada, é uma referência-chave em seu trabalho. Existe nele otimismo em relação à história e, em particular, à história de Angola?
Em certa altura do meu percurso decidi fazer um projeto de pesquisa sobre a história de Angola, em que a escravatura e o trabalho forçado eram os temas principais. Para isso, e com a ajuda de pessoas ligadas ao Arquivo Histórico, fui recolhendo material que ia alimentando a parte criativa, associando fotocópias ampliadas a objetos achados que assumem uma grande carga simbólica. Evidentemente não foi meu objetivo provar nada do ponto de vista histórico, pretendo apenas contribuir para evocar, sugerir leituras, de aspectos pouco divulgados no passado. No momento atual, em que se consolidou a paz em Angola, naturalmente que os desafios artísticos que se apresentam são diferentes e, sem dúvida alguma, motivadores para meu trabalho futuro.

O senhor já trabalhou durante um tempo em Salvador. Quais as semelhanças e as diferenças que unem e separam o Brasil de Angola?
Parece que há um estreito grau de parentesco no ar, o que me faz sentir sempre em casa, ao chegar à Bahia.

Poderia falar um pouco sobre a criação de “Canoa quebrada” e “Hidden pages, stolen bodies”, obras que estão na Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea?
“Canoa quebrada” é peça-chave num projeto que começou em 1994 em Luanda e que se chamava “Margem da Zona Limite”. Simboliza a história interrompida, uma instalação tirando recursos de vários materiais como ferro, tijolos, pastas de documentos, corvos embalsamados e televisores. “Hidden pages, stolen bodies”, a que já me referi anteriormente, faz parte de um projeto denso sobre o comércio de escravos, o que é significativo para Angola, e um pouco as conseqüências deste fato.


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