ANTÓNIO OLE
É
ao longo de suas caminhadas que o artista angolano coleta verdadeiros
fragmentos da memória: pedaços de barco, conchas, lembranças
de diferentes origens arranjandas de modo poético em obras que
recontam a conturbada história de seu país. A longa guerra
civil que por mais de 25 anos devastou o país, a dissolução
de estruturas, o legado colonial, mas também a reconstrução,
a esperança e a vida. Em seu trabalho, diz o escritor angolano
José Eduardo Agualusa, estão presentes “a memória
de naufrágios, maresias, máscaras e mascarados, o grito
das gaivotas, o marulhar das águas de encontro a velhos molhes,
a glória de crepúsculos desgarrados, o último fôlego
de tardes entre ruínas”. O mar, repositório de uma
parte significativa da história do continente africano, evoca
a partida e a chegada, o deslocamento e a aproximação.
“Acredito que ao confrontar-se com a arte de António Ole
qualquer brasileiro se sinta transportado a uma vida passada, do outro
lado do Atlântico, a uma memória africana herdada, se não
pelo sangue, ao menos através da cultura”,
diz Agualusa.
Ole, autodidata, nasceu em 1951 em Luanda, Angola, onde vive e trabalha.
Iniciou a carreira na pintura para, em seguida, explorar meios como
fotografia, escultura, filme e instalação. Nos anos 1980
diplomou-se pelo American Film Institute, nos Estados Unidos. Já
participou das Bienais de Havana, São Paulo, Johannesburgo e
Veneza. Em 2004 fez parte da grande exposição itinerante
“Africa Remix”.
Canoa quebrada | Luanda, 1994
(detalhe)
Hidden pages, stolen bodies (Páginas
escondidas, corpos roubados)
Lisboa-Grahamstown-Luanda, 2001