ENTREVISTA_EUSTÁQUIO NEVES


O trabalho de Eustáquio Neves, permeado por interferências físicas e químicas sobre a fotografia, caracteriza uma carreira marcada por imagens de grande impacto e amplo significado: pessoal, autobiográfico, e também sobre a própria condição da população afro-descendente no Brasil. O artista apresenta uma instalação inédita em Salvador, que dá início a uma nova fase de sua carreira: aqui, ele parte para projeções, e fala de sua idéia de trabalhar com vídeo.

Por Helio Hara


Em seu trabalho, há uma constante pesquisa e experimentação em torno de interferências (físicas, químicas). De que forma a instalação que apresentará na mostra, com projeções, representa uma nova etapa, um novo desafio?
Quem acompanha meu trabalho mais de perto vai perceber que eu continuo experimentado muito e fazendo menos interferências (físicas e químicas).
Fazer vídeo é uma vontade que me acompanha há muito tempo; na mostra em questão, o uso do vídeo de fato inaugura uma nova etapa na minha carreira e também não deixa de ser um desafio. Poucas são as curadorias que oferecem condições para produzir, e este é um desses raros momentos.

O crítico de fotografia inglês Mark Sealy diz que seu trabalho é clara e diretamente ligado à sua condição de negro. Isso é importante para você, ou preferiria ser visto e pensado apenas como um artista?
É bom ser visto e pensado como artista, mas também é bom não esquecer a condição de negro. Por exemplo, interferir fisicamente mas imagens é necessário para que eu expresse o que penso sobre a imagem ocidental.

Li que seu padrasto era de Moçambique. De alguma forma esse contato despertou em você algum tipo de relação com o passado, com a idéia de diáspora?
Essa informação sobre ter padrasto de Moçambique foi um equívoco de redação; quando dei esta entrevista eu disse que meu padrasto fazia parte de uma guarda de moçambiqueiros, que é uma manifestação profano-religiosa de resistência. Essa relação com o passado eu vivo no dia-a-dia diante das desigualdades, na batalha da minha mãe para criar com dignidade meus quatro irmãos e eu. Ela é uma figura forte e fundamental na minha formação.

Para onde caminha o seu trabalho, você gostaria de experimentar novos meios, como o vídeo?
Essa é a idéia, acho que eu sempre fiz fotografia pensando em cinema e o vídeo é um recurso mais acessível.

Utilizar elementos pessoais, como no caso de fotos da sua mãe, é um meio de pensar sobre sua própria trajetória? Esse confronto com o passado é algo doloroso ou prazeroso?
Prazer eu tenho no fazer, que poderia ser doloroso se não fosse o meu meio de expressão, instrumento, denúncia e reflexão. Meu trabalho é quase todo ele autobiográfico; a diferença é que agora, para discutir as profundas marcas da escravidão na atualidade, não por acaso faço apropriação de uma foto de minha mãe ainda jovem e de fotos minhas e da família.


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