ENTREVISTA_JOEL ZITO


Autor do premiado documentário “A negação do Brasil”, que fala sobre os preconceitos, os tabus e a trajetória de personagens negros na telenovela brasileira, o cineasta Joel Zito Araújo lança agora seu primeiro longa-metragem de ficção, “Filhas do vento”. O filme tem o maior elenco negro da história do cinema nacional, e emociona ao mostrar um drama universal, baseado nos conflitos das várias gerações de uma mesma família.

Por Helio Hara


A premiação do seu filme (melhor filme, segundo o júri popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, e vencedor de oito Kikitos no Festival de Gramado) surpreendeu você?
Eu sabia que o filme tinha qualidades e que um ou mais atores ganhariam prêmios, mas não esperava tantos. Os prêmios mostram a qualidade do longa-metragem e o tiram da idéia de um filme exclusivamente feito para o público negro. Sabia que o país se encantaria com uma história que retrata um conflito universal, uma história lírica, humana, entre mães, irmãs e filhas. Quem vai ao cinema quer se emocionar. Nos Estados Unidos, na África do Sul e na Índia, onde o filme também foi apresentado, a reação foi a mesma. As pessoas me paravam, queria falar sobre o filme. Outro elemento importante, que surpreende, é o fato de os atores que são negros escaparem dos estereótipos reservados para eles no cinema e na TV brasileira. Em “Filhas do vento”, eles são apenas brasileiros comuns. O (cineasta) Nelson Pereira dos Santos disse ter se encantado com o filme por não ter personagens estereotipados, disse que viu sua família em vários momentos do filme.

O filme tem elementos autobiográficos, como, por exemplo, a escolha de Minas Gerais, onde você nasceu?
Nasci no município de Nanuque, em uma vila parecida com a retratada no filme (Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, que, no século XVIII, surgiu como um quilombo). Os atores Milton Gonçalves e Ruth de Souza também são mineiros. Quando fiz meu longa-metragem
anterior, o documentário “A negação do Brasil” (sobre a trajetória dos atores e o preconceito contra os personagens negros nas telenovelas), ouvi histórias muito interessantes, que foram amadurecendo em minha memória. “Filhas do vento” reúne alguns desses “casos”. Na verdade, as minhas personagens femininas reúnem as histórias que ouvi das atrizes e das
mulheres da minha família.

“Filhas do vento” é um filme de mulheres fortes e poucos homens...
É um filme de mulheres, mas a situação do homem negro brasileiro está bem retratada. O personagem interpretado por Milton Gonçalves (o pai e avô que ganha a vida consertando bicicletas) é um típico pai negro preocupado em ser aceito pela sociedade, ele quer ser perfeito, tem uma moral rígida para demonstrar que não corresponde às visões estereotipadas sobre os negros. Zózimo Bulbul (que vive um homem apaixonado, sem ocupação definida) é um tipo comum que persiste desde o fim da escravidão: é o homem negro excluído do mercado de trabalho, que tem problemas com álcool, um jeito desanimado diante da vida. As mulheres obviamente se sobrepõem, mas os homens também são fortes, não são personagens planos e decorativos.

No filme, a palavra “destino” aparece com freqüência. A idéia é questionar a idéia do inevitável, do que já está traçado?
Quis mostrar a atitude que ainda persiste em uma parcela da população negra, aquela mais vitimada por nossa história, que tem auto-estima muito baixa. Como resultado do jogo de relações sociais e econômicas, ela aceita a miséria e acredita na idéia de destino. É algo que persiste desde o período da escravidão. Essas pessoas tendem a justificar sua condição de vida como uma fatalidade, e não como fruto de relações socioeconômicas. A personagem Cida (que migra para a cidade grande e concretiza o sonho de se tornar atriz)
rompe com esse círculo e realiza seu desejo. Ela também o multiplica, e serve como exemplo, já que sua sobrinha segue o mesmo caminho.


O amante que desestabiliza uma das personagens é um homem branco de olhos claros. Você foi criticado pela escolha?
Ele não é um vilão, dá apoio à amante num momento de crise. É um personagem quase documental,
super-realista, é o amante casado, de mulheres negras ou brancas. É o clássico amante, que, na vida real, poderia ser de qualquer cor. No filme, tinha que ser branco, pois há um sentido psicológico de punição: a filha quer punir a mãe, que personifica a negra de classe média, que jogou toda a sua energia na vida profissional esquecendo da filha, e ao mesmo tempo é militante, compreende e discute a questão racial. A mãe é atriz, e a filha escolhe a carreira militar e um amante branco...

Faz muita diferença histórias sobre negros serem contadas por negros ou brancos?
O cinema negro vive uma etapa transitória particular. O universo psicológico e cultural nosso é diferente, e não pode ser compreendido por brancos. Por cinema negro não quero dizer cinema com maioria de negros (no elenco, ou na produção), mas um cinema em que a autoria tem uma postura diaspórica negra. Em “Assalto ao trem pagador” (Roberto Farias, 1962), o que se vê é um olhar de fora (de um diretor branco sobre o personagem negro Tião Medonho, interpretado por Eliezer Gomes). Já em “Rio 40 graus”, o diretor, Nelson Pereira dos Santos, um homem com origem na classe média baixa, filho de alfaiates, graças ao ambiente em que foi criado, nos bairros do Brás e do Bexiga
em São Paulo, aproximou-se dos negros na tenra infância, conseguiu compreendê-los e incorporá-los de uma forma diferente em seus filmes.

Em países como os Estados Unidos, estuda-se a arte produzida por afro-americanos como uma categoria distinta. No Brasil, pensar em “produtores culturais negros” é relevante?
O futuro do Brasil caminha para a idéia de multirracialidade. A marca dos anos 1930-40 no nosso país era a idéia da mestiçagem. É o que diferenciaria o Brasil em relação, por exemplo, aos Estados Unidos. Essa idéia passou a ser questionada. Não sou contra a miscigenação, sou produto dela e não sou suicida! Mas a diferença é que, hoje, assim como na arquitetura moderna, a idéia de hibridização é de, em vez de apagar o passado, ressaltar as origens de cada elemento, valorizar o passado junto ao presente. “Filhas do vento” foi influenciado por Spike Lee e outros cineastas americanos negros, mas, também, por Almodóvar, Fellini, Bergman. É a hibridização sem apagar os pertencimentos raciais e étnicos. No Brasil, o discurso negro é pela integração, pelo reconhecimento, pela convivência entre iguais, pela convivência democrática com base na idéia da multirracialidade, não um discurso de separação, como em muitos setores e raças da sociedade norte-americana.

É importante a mão do Estado para impulsionar o cinema negro no Brasil?
Penso que sim porque, no Brasil, a sociedade é ambígua, avançada de um lado e conservadora de outro. Nenhum político de direita gosta de ser chamado de direitista, ninguém admite ser racista. Assim como nos Estados Unidos e na África do Sul, precisamos de uma etapa em que o Estado facilite o acesso de negros, índios e demais grupos étnicos minoritários ao direito de conseguir recursos públicos para a sua produção artística, assim como o direito a cotas nas universidades. Seria algo transitório, não sei por quanto tempo precisaremos disso, mas é necessário brigar por cotas, pelo apoio de estatais a um cinema negro, à cultura indígena.

A organização de cineastas negros é algo importante no Brasil, um país em que a produção de TV e publicitária é marcada por um padrão particular de beleza?
Em geral, pessoas brancas, loiros de olhos claros... Esse é um padrão completamente nórdico. Você vê em revistas a lista dos 50 atores de novela mais bonitos e no topo estão tipos claros, de olhos azuis ou verdes. Quanto mais nórdico, mais bonito! Temos que mudar isso, compreender que a beleza ou a feiúra não são atributos específicos de nenhuma raça. Temos que
quebrar essa idéia estética racista de superioridade do branco em relação ao negro. Quanto à associação de cineastas negros, acho-a importante, sim. Temos que estar juntos para demarcar e proteger um território. Como os cineastas gays e as mulheres, que precisam se associar para defender interesses e conseguir executar suas idéias, suas criações.

A popularização de novas tecnologias democratizou o cinema, dando acesso a mais diretores negros?
Não houve impacto direto. As tecnologias emergentes permitem que novos cineastas experimentem até chegar ao primeiro longa-metragem. Hoje, há 18 novos cineastas negros no Brasil que já fizeram os seus curtas e possivelmente despontarão como grandes nomes nos próximos cinco anos. Na chamada “retomada do cinema brasileiro” (particularmente a partir de meados dos anos 1990, quando cresceu a produção e a arrecadação de filmes nacionais), surgiram 200 novos nomes que realizaram pelo menos um filme de longa-metragem. Eu sou o único assumidamente afro-brasileiro entre eles. Isso é significativo dos problemas que temos.

Você então é um otimista?
Sim, de forma exagerada, doentia! Acho que tudo vai melhorar muito. Se você pensar na sociedade brasileira a partir dos anos 1970, verá que, apesar da lentidão de tartaruga, houve melhora e, hoje, o panorama já é diferente. Naquela época, notáveis dos esportes escondiam a sua negritude, os intelectuais, artistas, a esquerda brasileira, todos acreditavam e adoravam o mito de que vivíamos em uma democracia racial. Hoje, há políticos negros, ministros, ativistas em ONGs, músicos de hip hop extremamente ativos pressionando pela criação de um país diferente.E existe uma nova geração de brancos que tem uma visão diferente. Quanto às idéias de relações raciais que defendemos, trata-se de uma demanda histórica, secular, que adquiriu muita força nos ultimos 20 anos. Meus filmes fazem parte desse movimento, são resultados dessa base social.


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