ENTREVISTA_JOÃO CARLOS RODRIGUES
Escritor e pesquisador de cinema, o carioca João
Carlos Rodrigues é autor do livro “O negro brasileiro e
o cinema”, lançado em 1988, que faz um levantamento da
participação de afro-brasileiros na produção
de filmes no país, e fala de lacunas, conquistas e estereótipos
no cinema nacional. Aqui, ele fala dos avanços conquistados e
dos desafios ainda a serem vencidos.
Por Helio Hara
Cerca de 15 anos depois da publicação do livro “O
negro brasileiro e o cinema”, houve mudanças perceptíveis,
consideráveis e concretas da participação da população
afro-brasileira na produção cinematográfica?
Sim. Surgiram alguns novos cineastas, muitos novos atores, e a temática
também se ampliou. Parece que o Brasil, aos poucos, vai se democratizando.
Ainda não estamos num mundo ideal, mas mudou sim, e para melhor.
Em seu texto para o catálogo da mostra você lembra que,
enquanto os afro-descendentes ocuparem os estratos mais baixos da sociedade
brasileira, os cineastas estarão apenas se inspirando na realidade
(ao mostrar personagens marginais). Enfatizar uma minoria (que faz parte
de estratos mais elevados) poderia ser uma boa tática para promover
a auto-estima de afro-brasileiros?
Essa é uma situação muito complexa. Se o cinema
nacional mostrar apenas negros marginais, estará ajudando a perpetuar
a baixa estima da população afro-brasileira. Mas se, por
outro lado, só mostrar uma classe média negra, estará
fugindo da realidade, dourando a pílula, pois essa elite privilegiada
não representa a maioria. Acho que o melhor é coexistirem
as duas correntes democraticamente.
“Filhas do vento”, com o maior elenco negro do cinema
nacional, é saudado como um marco. Você acredita que há
um contexto favorável para o filme não se tornar uma iniciativa
pontual e isolada?
Tudo vai depender da receptividade do filme diante do público
negro, e do público brasileiro como um todo. O filme é
bom, mas isso não basta. É preciso que seja bem lançado
em salas que estejam em bairros com todas as classes sociais, independentemente
da cor da pele. Acho que pode ultrapassar o fato de ser um fenômeno
isolado: foi premiado em Gramado [no festival de cinema], teve uma boa
crítica no [jornal americano] “New York Times” etc.
Mas é preciso que seja visto, e não tenho certeza de que
sua distribuidora, a Riofilme, esteja à altura dessa tarefa.
Mas vamos torcer. Em São Paulo, o Jefferson De, outro cineasta
negro que prepara seu primeiro longa-metragem, tem uma proposta semelhante
à do Joel Zito [Araújo]. Portanto, “Filhas do vento”
não é mais um fenômeno isolado.
A produção de canais de TV comerciais brasileiros incluiu,
nos últimos anos, minorias como nordestinos e gays. Você
avalia isso como um fenômeno ligado ao “politicamente correto”
e, nesse sentido, a inclusão de afro-brasileiros seria natural
e positiva? Ou seria apenas um modismo?
Não acho que seja um modismo politicamente correto. Isso não
acontece por acaso, nem por bondade. É uma estratégia
comercial. As agências de publicidade, assim como os fabricantes
dos produtos em questão, sabem que há fatias do mercado
bem específicas: crianças, mulheres, negros, homossexuais,
minorias regionais... E investem nelas. Mas não acho uma má
coisa: mostra que essas pessoas são agora consideradas consumidores
potenciais, o que não acontecia antes. Mal ou bem, para desespero
de sociólogos e dos políticos populistas, está
havendo alguma distribuição de renda, mesmo que na informalidade.
Em países como a Grã-Bretanha, apresentadores de TV
negros e/ou velhos são parte da rotina. No Brasil, contudo, isso
é extremamente raro, privilegiando-se juventude e pele clara
(combinada a cabelos muito lisos). Você acredita que é
possível manter por longo tempo essa imagem, completamente dissociada
da realidade?
Não acho que seja possível enganar todo mundo durante
todo o tempo. Mas lembro que já existiram apresentadores negros
de TV desde os anos 1960, como o Noite Ilustrada, a Glória Maria,
a Aizita Nascimento, e alguns outros negros. E o Cid Moreira é
tão velho que tem até cabeleira branca, assim como o Boris
Casoy. A estética do jovem branco de olhos claros e cabelo liso
(que representaria 51% da população nacional), não
sabemos bem de onde vem, mas não é dos Estados Unidos,
onde a mídia já é multirracial desde os anos 1970,
pelo menos. Parece coisa de quem faz a TV no Brasil. Vai acabar e não
vai demorar tanto assim.