ENTREVISTA_CHERYL FINLEY


Professora de História da Arte e Cultura Visual do Africana Studies and Research Center da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, curadora e crítica de arte, Cheryl Finley é uma das convidadas da Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea, realizada pela Associação Cultural Videobrasil. Em seu encontro com o público ela falará sobre como afro-descendentes se relacionam com a memória e a história por meio de práticas como o “turismo de raízes”. A prática consiste na visita a locais em que ainda existem elementos materiais do passado – como, por exemplo, pelourinhos, castelos usados pelo comércio escravo – para refletir sobre a história e melhor compreendê-la. Cidades de Gana e também Salvador, estão entre os destinos dessa experiência. Finley, que já visitou o Brasil anteriormente, nos fala nesta entrevista exclusiva sobre sua participação no evento.

Por Helio Hara


Que temas farão parte de sua palestra em Salvador?
Em termos gerais, pretendo discutir as políticas contemporâneas de “memorialização”, os meios utilizados por indivíduos, comunidades, artistas e nações para perpetuar narrativas de memória pública e privada. Ao me debruçar sobre os temas como herança cultural, ou “turismo de raízes” e artes visuais, vou destacar temas e desafios comuns enfrentados em projetos de “memorialização” e suas conseqüências sobre a diáspora africana.

Seus estudos sobre o “turismo de raízes” contribuem para a reflexão sobre essa prática. Como você avalia o impacto e a importância do “turismo de raízes” para afro-descendentes?
Em um de meus primeiros trabalhos sobre o “turismo de raízes”, identifiquei a prática como uma parte essencial do que chamo de “possessão simbólica do passado”. O “turismo de raízes” é uma iniciativa importante, que permite a indivíduos se conectarem com o passado, identificarem-se com rituais e locais de importância cultural e histórica de maneira tangível e significativa no presente. O contato pode acontecer também com os povos de quem descendem.

O preço das viagens faz com que afro-descendentes de países e regiões como o Brasil e o Caribe tenham poucas chances de visitar a África. O “turismo de raízes”, portanto, é uma experiência basicamente norte-americana. Qual seria a importância do “turismo de raízes” para afro-descendentes de outras partes do mundo?
O “turismo de raízes” é extremamente importante para afro-descendentes/africanos da diáspora de todo o mundo e sobretudo nas Américas, onde práticas culturais, estilos arquitetônicos e elementos históricos de origem africana ainda existem. Se a interpretação literal da idéia de “turismo de raízes” implica uma conexão real ou simbólica com a África, isso não significa que é preciso ir até lá para ser um “turista de raízes” ou praticar o “turismo de raízes”. O “turismo de raízes” tem impacto sobre afro-descendentes que buscam conexões com suas raízes em práticas culturais e em seus próprios países. No Brasil, por exemplo, afro-descendentes de São Paulo ou do Rio de Janeiro podem visitar Salvador ou outros locais em suas próprias cidades, marcos importantes que tenham significado para a compreensão deles mesmos como descendentes da África. Em outras palavras, o “turismo de raízes” nem sempre exige uma grande despesa com uma viagem à África. Nas Américas, com freqüência, pode-se sentir um pedaço da África no próprio quintal.

Até que ponto essa “volta às origens” ajudou afro-descendentes a se relacionarem com o passado? A prática tem impacto mais amplo? Por exemplo, ajudando as pessoas a enfrentarem desafios concretos do presente?
Sim, ela faz parte do processo que consiste em estabelecer uma relação com o passado, e isso promove uma maior compreensão. Muitas pessoas vêem o “turismo de raízes” como um processo de cura, um meio de se relacionar com o passado, com a história da escravidão transatlântica e a existência (muito real) do racismo contemporâneo. Muitos “turistas de raízes”, em viagens por seus próprios países ou na África, pensam nas viagens como uma peregrinação. Ela faz parte desse processo de cura que resulta numa mais ampla compreensão.


Soube que você aprendeu português. Vai praticá-lo em Salvador?
Sim! Vou praticar, espero que sim!


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