O ARTISTA NA COVA DOS LEÕES
Cibele Lucena Jerusa Messina Joana Zatz — Contrafilé
A
MORADA
Este é o campo de batalha. Acorde, e perceba que nesta luta
eu só tenho você. Eles espalharam em todos os cantos, em
toda parte, em todas as esquinas, de todos os lados, a minha palavra:
OLHE. *
Saturada de tensões, a cova dos leões é a morada
do artista.
Nela prepondera um movimento linear e estável que a apresenta
como um lugar homogêneo e sem contradições. Movimento
cuja lógica atualiza somente situações previsíveis,
reproduzindo sentidos como forma de manter o controle.
Esse movimento é o alvo do artista: deve ser interrompido.
O ARTISTA
Os
anjos luminosos me protegem e minha fé é certeira. O alvo
está logo ali, embaixo, parado, esperando a ação
que trará a redenção, que recuperará a integridade
de todas as coisas e unirá tudo.
Em permanente estado de alerta, o artista olha para a cova dos leões
e vê ali toda a constelação de possíveis.
Vislumbra uma clareira: a possibilidade de subverter o movimento dominante.
Identifica os possíveis geradores de sentido e, atualizando-os,
afirma sua atitude política. Inscreve-os para realizar necessidades
radicais e experimentar a vida como arte.
Quando arte é substrato das atualizações não
previstas pelo movimento vigente – para esse artista –,
é ato político. Fazer arte é, então, produzir
sentido; criar e inscrever sua maneira, inaugurando o refluxo.
O artista na cova dos leões transforma a história ao realizar
o que de outro modo não teria sido.
A RUPTURA DO MOVIMENTO
O ato heróico dos catadores de restos é o estado da
contemporaneidade. Transitoriedade, esse invisível que tenho
a expor. Restos luminosos são o que tenho — vamos excluindo
e deslocando... Tento recolocar os restos de volta à vida, que
é a circulação das coisas. Assim me recoloco.
Na cova dos leões, repleta de contradições, o artista
se sente íntegro: é na contradição que vive
a experiência legítima da verdade e, com isso, a possibilidade
de ruptura. Olha uma situação e a vê como imagem
da sua urgência de inscrição; como ponto de divergência
entre o que é e o que, para ele, teria sido.
O domínio crítico do mundo em código possibilita,
portanto, a realização do artista: interromper o fluxo
fazendo surgir, subitamente, outra possibilidade.
DA CONTRADIÇÃO NASCE A SÍNTESE
Despindo-me para o encontro divino, percebo que meu corpo
é único e repetido. Da contradição nasce
a síntese. Re-produzir, como reflexo, do outro lado do espelho
ou produzir refletindo, deste lado do espelho. A esperança de
reinvenção vem quieta sem que nós percebamos.
O artista age. Evidencia os indícios da contradição
ao realizar um fato que inscreve simbolicamente a resistência.
Um grão singular portador de futuro que, por abrir uma nova constelação
de possíveis, viabiliza a sua própria proliferação.
A CAPTURA
A cidade, tomo para mim. A pichação é uma invenção.
Supera o corpo, estendendo-se para o vazio; ocupando com ação
invisível a clareira urbana. A conquista do espaço é
aqui. Público é o meu anonimato e a imagem é para
sempre minha.
Para o artista na cova dos leões, o fato inscrito transformado
em evento é a própria realização do refluxo,
porque se configura como a duração de um possível
inesperadamente atualizado.
Por outro lado, é natural que o movimento dominante transforme
o acontecimento portador de futuro num evento de outra ordem: uma imagem
esvaziada de experiência. Portanto, perdurar o fato em evento,
segundo a lógica da reprodução, é eliminar
seu potencial de proliferação, determinando sua morte
enquanto símbolo de resistência.
AS ARMAS
A imagem é circulação.
A imagem é captação, edição e manipulação.
A imagem é uma nova construção.
A imagem é possibilidade de metalinguagem.
A imagem revela o perverso espetáculo unilateral.
A imagem seduz a ação.
A imagem te seduz e constrói nosso mundo de ação.
A imagem é contra-imagem.
A imagem é só imagem.
A vida é blur. Nada mais.
Para que o acontecimento não seja capturado, é fundamental
que o artista realize os dois lados do espelho: o fato e sua imagem.
Quando entende a imagem como uma arma, cria outro fato que, da sua maneira,
prolifera o sentido produzido no primeiro.
Sem prontidão, o artista corre o risco de inscrever a imagem
do fato de modo a confirmar a lógica da reprodução,
tornando-se predador de si mesmo. Assim, em qualquer situação,
o artista na cova dos leões deve garantir que um novo fato portador
de futuro seja gerado.
A LINHA INTERMITENTE
A coluna rompe com o espaço contido. Subverte o isolamento
imposto pela arquitetura. Cria um monumento sintético, onde a
verticalidade e a horizontalidade são exacerbadas numa reta infinita
— uma continuidade do ponto. Também é um ato heróico,
guerrilheiro, lírico, em que a intervenção se utiliza
da dinâmica previsível do presente para gerar o seu reconhecimento,
criando no cotidiano a estranha percepção/compreensão
de algo que retorna a si mesmo.
O artista na cova dos leões vive o mundo das exposições
de arte como uma arena.
Deve permanecer
alerta porque, nesse mundo, novas maneiras para produzir as mesmas coisas
costumam ser legitimadas como obras. Portanto, é preciso ter
em mente que a finalidade e o uso que se faz dos meios é o que
determina a inscrição do trabalho como resistência
ou tolerância ao movimento dominante.
É fundamental que o artista na cova dos leões tenha ao
utilizar os mesmos meios para outro fim: confirmar a própria
contradição.
A REDENÇÃO
Não importa o que foi nem como aconteceu. Importa apenas o
que aqui está. Restou o meu olhar. É preciso ouvir a música
que faz lembrar a mudança acontecendo a cada instante. Não
tenha medo do que virá, pois, na hora da nossa morte, vamos ser
o que sempre desejamos ser. E mesmo assim, se algo escapar, deixe estar,
porque um dia todos nós vamos ser um. Um só.
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* Todas as citações em itálico foram retiradas
do texto “Daniel na cova dos leões”, de autoria do
artista Daniel Lima.